Robert Schumann
John Nelson regente
Osesp
Gravada em maio de 2010 na Sala São Paulo.

Retrato do compositor Robert Schumann (1839), por Joseph Kriehuber.
O final da década de 1840, quando vivia uma fase de euforia, foi especialmente produtivo para Schumann. Após a leitura de alguns poetas, compôs, em 1848, a Canção do Advento, sobre poema de Friedrich Rückert (1788-1866). No ano seguinte, escreveria o Réquiem Para Mignon, baseando-se no romance Wilhelm Meister de J. W. von Goethe (1749-1832). Foi entre 1848 e 1849, depois de completar Genoveva, que o compositor concebeu a música incidental para o poema dramático Manfred, de Lord Byron (1788-1824). Revista em 1851, a música é encabeçada pela “Abertura”, seu trecho mais famoso.
O texto do poeta inglês, de 1817, é ambientado na Suíça; a ação se passa ora no castelo gótico da personagem-título, ora em meio às paisagens, então selvagens, dos Alpes. A obra retrata o herói romântico, que rejeitava tanto o contato humano quanto o conforto das religiões. Manfred é consumido por seu sentimento de culpa por uma transgressão, que envolve Astarte, única mulher que amou, morta por sua causa. Essa heroína espelha a irmã do poeta, com quem manteve uma relação incestuosa, na Inglaterra, antes de iniciar o exílio. São estas as últimas palavras do moribundo Manfred: “Não é tão difícil morrer”.
Schumann, que sempre se identificou com Manfred, esse herói atormentado pela loucura e pela morte, concentrou algo do enredo do texto de Byron na sua dramática abertura orquestral, dominada por três temas principais acompanhados de alguns motivos episódicos. Ainda que obedeça à forma-sonata clássica, a costura das ideias é tramada de maneira a sugerir a liberdade formal de um improviso. O primeiro tema, cromático, é mostrado logo na introdução lenta, evocando a amargura de Astarte. Às vezes, é interrompido por exclamações das cordas em fúria; assim se chega ao segundo motivo, ligado a Manfred, de recorte a um só tempo impulsivo e apaixonado. Essa ideia, por sua vez, engendra o terceiro tema, que simboliza o pedido aterrorizado de Astarte, o qual reintroduz a progressão cromática ascendente do começo.
Depois de todo um trabalho temático baseado em climas que mesclam agitação e dor, a “Abertura” extingue-se numa coda mais apaziguada, que ruma em direção ao silêncio.
J. Jota de Moraes


















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