Os Pássaros
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Movimento: Prelúdio (trecho). Uma obra de Ottorino Respighii. Orquestra de Câmara da Osesp, sob a regência de Victor Hugo Toro. Gravada em setembro de 2008 na Sala São Paulo.
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Excelente instrumentista, de temperamento lírico e amante dos grandes efeitos musicais, com apenas 21 anos, Respighi é contratado como violinista da Orquestra da Ópera de São Petersburgo. Na Rússia, sob a orientação de Rimsky-Korsakov, aprimora-se em composição e orquestração. Posteriormente, estudou na Alemanha, com Max Bruch. Essas oportunidades permitiram-lhe desenvolver um estilo próprio, unindo sua exímia técnica instrumental às conquistas harmônicas e colorísticas do impressionismo francês.

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Pequena Missa Solene
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Gioacchino Rossini

- Et vitam venturi saeculi

Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em novembro de 2008 na Sala São Paulo

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foto: Ana Fuccia

A Petite Messe solennelle teve sua primeira execução pública em 1869 ―após, portanto, a morte de Rossini―, no Théâtre Italien e na versão orquestral que havia sido elaborada pelo compositor nos anos de 1866-67.

O título da obra é enganador, pois a Petite Messe solennelle ―com duração de cerca de 80 minutos!― não é nem petite nem muito solennelle. Poderíamos acrescentar que a obra tampouco é especialmente litúrgica…

Rossini disse que a Petite Messe solennelle foi o seu “derradeiro pecado mortal de velhice”. O manuscrito da obra contém anotações muito interessantes, que revelam a natureza espirituosa e perspicaz do compositor, ao dirigir-se diretamente a Deus:

“Bom Deus. Está concluída esta pobre pequena missa. Será que é mesmo música sacra que eu acabo de fazer ou uma música maldita? Eu nasci para a Opera buffa, tu bem o sabes! Um pouco de conhecimento, um pouco de coração, tudo está lá. Seja abençoado e me conceda o Paraíso.”

Outra divertida anotação de Rossini, alusiva aos 12 cantores que deveriam participar da execução da missa:

“…Bom Deus, perdoa-me pela seguinte comparação: doze são os apóstolos no célebre afresco pintado por Leonardo e conhecido como a última Ceia, quem diria? Entre os teus discípulos, alguns desafinam. Senhor, esteja certo, eu declaro que na minha refeição não haverá nenhum Judas e que os meus cantarão com exatidão e ‘con amore’ os Teus Louvores e esta pequena composição que é, pobre de mim, o último pecado mortal de minha velhice.”.

Encontramos na Petite Messe solennelle grande variedade de expressão: seções muito interiorizadas contrastam com trechos tempestuosos e associados à vitalidade rítmica, que é uma marca característica de Rossini. O ritmo associado a ricas modulações desempenha papel importante no Kyrie inicial, exaltando-se ainda mais no Gloria e no Credo ―no qual ressaltamos a magnífica escrita contrapontística dos trechos Cum sancto spirito e Et vitam venturi saeculi. O admirável solo de tenor Domine Deus remete o ouvinte ao trecho Cujus animam do Stabat Mater, composto em 1842, ao passo que as raízes operísticas rossinianas estão presentes no segmento Quoniam. O movimento O salutaris não fazia parte da Petite Messe solennelle quando esta foi estreada em 1864 e foi provavelmente acrescentado à obra somente em 1866. Trata-se de uma bela ária para soprano, na qual Rossini explora harmonias pouco usuais. O movimento final é um dramático Agnus Dei para contralto ―a tessitura vocal preferida de Rossini― e coro. A voz solista atua em alternância com o coro, que entoa a comovente oração Dona nobis pacem. A obra conclui de modo denso e incisivo.

Esta ‘pequena-grande’ missa é o testamento musical de Rossini. O grande compositor italiano colocou nessa sua obra todo o seu conhecimento, a sua devoção e a sua ousadia.

Richard Osborne, em sua notável biografia de Rossini, afirmou que nesta missa o compositor incluiu elementos extremamente variados, que remetem à música de Palestrina, Bach e Haydn, ao mesmo tempo em que estende o seu olhar para horizontes ainda mais distantes do que Franck, Fauré ou até mesmo Poulenc foram capazes de fazer em suas obras sacras. No entanto, ainda que claramente rossininiana, a partitura está impregnada de uma espiritualidade surpreendente para um compositor que sempre se mostrou pouco religioso e místico.

Amaral Vieira é compositor e pianista.

Papai Elefante – Romantismo pop e bem-humorado
Categorizado em Som Pra Viagem

capa_papai_elefanteEles começaram a tocar por pura diversão, mas depois de quatro anos se aprsentando onde houvesse espaço, os integrantes do Papai Elefante notaram que o caminho mais certo era divulgar seu trabalho autoral. O CD, que leva o nome da banda, é o resultado desta tomada de decisão. Com produção da própria banda e com distribuição pela Tratore, o disco traz letras românticas e bem-humoradas, uma mescla pop inspirada e algo melancólica; um repertório que esta rapaziada vinda de Bauru, já apresentou no Nokia Xpressbansd e no concurso Cena Musical Independente, por exemplo. Pra falar do disco e dos planos da banda, Beto Garcia (baixo e vocal), Eduardo Dubowski (bateria) e o baixista Samuca são os convidados do Som Pra Viagem.
Papai Elefante na net: www.myspace.com/papaielefante
Apresentação: Deborah Izola
Edição: Edu Barbosa

Pequena Missa Solene
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Gioacchino Rossini

- Kyrie

Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em novembro de 2008 na Sala São Paulo

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Após ter mudado dramaticamente o rumo de sua vida, ao se retirar da vida artística e desistir da composição em 1830, Gioacchino Rossini criou somente duas obras verdadeiramente importantes no longo período de 38 anos que antecedeu a sua morte.

Curiosamente, trata-se de duas obras de inspiração religiosa: o Stabat Mater composto na Itália em 1842 e a Petite Messe Solennelle escrita em Paris no verão de 1863.

Rossini compôs a Petite Messe Solennelle em sua propriedade de Passy, nos arredores de Paris. A notícia de que o grande mestre italiano havia completado uma nova obra sacra de grande porte causou sensação. Já em agosto de 1863, essa novidade havia atravessado o Atlântico, e a revista norte-americana Aesthetic Magazine publicou um artigo com o título de ‘A Missa misteriosa de Rossini’.

A obra foi concebida para doze cantores (quatro solistas e oito cantores adicionais), dois pianos e harmônio. Apesar de não ser possível comprovar se a missa foi encomendada a Rossini por seus banqueiros e amigos pessoais Conde e Condessa Alexis e Louise Pillet-Will, o manuscrito autógrafo, preservado em Pesaro, reforça essa teoria: traz uma dedicatória à Condessa Louise. A composição foi estreada na segunda-feira, dia 14 de março de 1864 às 10 horas da manhã, para um grupo especial de convidados, entre os quais o grande compositor Giacomo Meyerbeer. A ocasião celebrava a consagração da capela particular da nova mansão construída pelo Conde na Rue de Moncey, nº 12.

O Conde e Condessa Pillet-Will e seus familiares eram amigos íntimos de Rossini desde o momento em que o compositor e sua esposa, Olympe, chegaram a Paris vindos de Florença, no final de maio de 1855.

Apesar de a Petite Messe Solennelle ter sido apresentada somente para convidados, informações detalhadas sobre o evento foram divulgadas pela imprensa parisiense. As duas solistas que participaram da estréia da obra foram Carlotta e Barbara Marchisio, respectivamente soprano e contralto ―cantoras que Rossini admirava muito especialmente. As vozes masculinas foram confiadas ao tenor Ítalo Gardoni e ao baixo belga Louis Agniez (mais conhecido como Luigi Agnesi). Contrariando as instruções do próprio compositor, que havia previsto na partitura a participação de somente oito cantores no coro, aquele que se apresentou na estréia da missa era formado de quinze alunos do conservatório. Desse modo, dezenove cantores estiveram envolvidos no concerto particular. O conjunto, dirigido por Jules Cohen, contou com Georges Mathias e Andrea Peruzzi, que se encarregaram das partes dos dois pianos, e ainda com Albert Lavignac, que tocou o Harmonicorde-Debain (instrumento construído por Alexandre François Debain e da mesma família do harmônio).

A obra foi apresentada novamente na residência dos Pillet-Will no ano seguinte, na presença de Rossini e com os mesmos intérpretes da estréia e, para que isso se tornasse possível, o Conde trouxe especialmente as irmãs Marchisio de Florença.

Amaral Vieira é compositor e pianista.

Carlos Navas – Uma voz de muitas tessituras
Categorizado em Som Pra Viagem

carlos-navasEle já havia dividido o palco com importantes intérpretes da MPB, como Alaíde Costa e Tetê Espíndola - e até trabalhado como agente e produtor de outros tantos nomes - quando Carlos Navas foi saudado pela crítica como uma das revelações da música brasileira. Porém foi escolhendo criteriosamente o repertório de seus shows, e também dos discos, que o artista paulistano conquistou definitivamente seu espaço. Cantor de timbre singular, e extensão incomum, Carlos Navas coleciona, em sua trajetória, sete trabalhos em disco. Neste bate-papo com Deborah Izola, o cantor fala particularmente de dois deles: “Quando o Samba Acabou”“Canções de Faz de Conta”, ambos lançados pela  Lua Music. Confira!
Carlos Navas na net: www.carlosnavas.com.br
Apresentação: Deborah Izola
Edição: Edu Barbosa

Réquiem, KV 626
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Wolfgang A. Mozart

- Confutatis
- Lacrimosa

John Neschling regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2006 na Sala São Paulo

requiem2_mozartAo analisar o Réquiem, vislumbra-se a confrontação pessoal e artística do autor com o imponderável —a morte. Essa atitude se anuncia já no prelúdio instrumental, tecido por clarones e fagotes e por timbres alternados das cordas; graves, agudos, graves, agudos… É um lamento ‘conformado’, interrompido pela turbulência dos trombones, trompetes e tambores: a fatalidade se apresenta! Assustadora, redentora? Em carta ao pai, Mozart, 31 anos, disse: “A morte é a meta final; vejo-a como a melhor amiga da humanidade; mas, ao morrer, o que será de mim?”.

O Tuba Mirum (ressurreição dos mortos) sublinha a angústia-esperança de Mozart: nada resta sem expiação (ni inultum remanebit). Já o Recordare enfatiza a devoção e a confiança: Preces meae non sunt dignae, sede tu bonus fac benigne, ne perenni cremer igne. (Minhas preces não são dignas, mas mostrai-vos bondoso, para que eu não me consuma no fogo eterno.) Segundo Constanze, mulher de Mozart, este momento do Réquiem seria o clímax. Ela lembra, também, que ao cantar a Lacrimosa em companhia de amigos, Mozart caiu em prantos. Lacrimosa dies illa qua ressurget ex favilla, judicandus homo reus. (Ah! Aquele dia cheio de lágrimas, em que ressurgirá das cinzas o homem culpado para ser julgado.) O fim da vida terrena se aproximava. Anunciava-se a vida eterna?

Marino Maradei Jr. é jornalista, radialialista e docente da Faculdade de Comunicação da FAAP.

Réquiem, KV 626
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Wolfgang A. Mozart

- kyrie
- dies irae

John Neschling regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2006 na Sala São Paulo

requiem_mozartO Réquiem em ré menor, KV 626, é uma das obras mais enigmáticas da história da música. Abraçam-no lances de suspense, desde que foi encomendado anonimamente a Mozart pelo conde Franz Walsegg Stuppach, até a morte do compositor. O conde tinha a veleidade de assumi-lo como obra de sua própria autoria e pretendia apresentá-lo em memória da esposa, falecida ainda jovem. Em julho de 1791, quando ainda trabalhava em A Flauta mágica, Mozart recebeu a visita de um emissário do conde. Este lhe propôs 60 ducados (30 adiantados) para escrever a missa fúnebre; não se identificou, não lhe explicou a origem do pedido, e desapareceu sem deixar pistas. Seis meses depois, Mozart morreu e quem completou o Réquiem foi Franz Xaver Süssmayr, seu aluno. Com o passar do tempo, esses fatos cobriram-se de sedutoras lendas e especulações. Uma delas, levada à tela em Amadeus (1984) pelo diretor Milos Formam. O filme sugere que Mozart, a partir do instante em que a encomenda lhe fora feita, ter-se-ia sentido permanentemente perseguido pela imagem do mensageiro (um vulto trajado de cinzento que, sem trégua, batia-lhe à porta, cobrando-lhe a finalização da missa; seria, em última instância, a sombra da morte a perseguir o compositor).

O último ano de vida de Mozart, aliás, foi marcado por episódios extraordinários. Trabalhou pesado (as óperas A Flauta mágica e A Clemência de Tito, o moteto Ave verum Corpus, o Quinteto em Mi bemol para cordas, KV 614, o Concerto para Clarinete, KV 622, a cantata maçônica O Elogio da Amizade, KV 623, entre outras escrituras); desfrutou do sucesso de A Flauta mágica; mergulhou na produção do Réquiem; e subitamente traiu-lhe a doença que o matou em 15 dias. Do Réquiem, por alguns estudiosos configurado como “fragmento”, entre eles H.C. Robbins Landon, subsistem como autógrafos: Introito: Requiem Aeternan (completo); Kyrie (completo em partitura rascunhada); Seqüência: Dies Irae, Tuba Mirum, Rex Tremendae e Confutatis (completos em partitura rascunhada); Lacrimosa (só 8 compassos em partitura rascunhada; interrompe-se depois); Ofertório: Domine Jesu e Hostias (completo em partitura rascunhada). Não há material autógrafo algum, conforme Landon, para Sanctus, Benedictus e Agnus Dei. Subsistem: esboço para o compasso 7 e seguintes de Rex Tremendae (5 compassos) e esboço para uma fuga de Amen (16 compassos), provavelmente para fechamento da Seqüência, como propõem Landon e Keefe.

O Réquiem, KV 626 é uma obra impressionante, composta no apogeu do Classicismo. Combina belas melodias, ora líricas, ora austeras, com polifonias intrincadas (referências ao Barroco). Eis aí um modelo da formidável arquitetura de Mozart, construído em ré menor (recurso dramático para acentuar o discurso), pontilhado de dissonâncias e contrastes sabiamente dispostos: si bemol (Tuba Mirum), fá maior (Recordare), lá menor (Confutatis), sol menor (Domine Jesu) e mi bemol (Hostias). Para Greither, trata-se de um painel de emoções entrecruzadas tão coerente com o espírito de Mozart que é difícil acreditar que o Réquiem não seja uma obra inteiramente mozartiana. Harnoncourt sustenta a mesma tese. “Não posso crer que um compositor menor como Süssmayr, cuja obra jamais vai além de uma medíocre banalidade, pudesse de moto próprio concluir a Lacrimosa e compor o Sanctus, Benedictus e Agnus Dei. Para mim estes movimentos também se originaram em Mozart, seja porque algum material em forma de esboço estivesse ao alcance de Süssmayr, seja porque Mozart os tenha tocado para ele, de sorte que de alguma maneira ficaram retidos na memória dele.”

Marino Maradei Jr. é jornalista, radialialista e docente da Faculdade de Comunicação da FAAP.

Idomeneo, KV 366
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Wolfgang A. Mozart

- Abertura

John Neschling regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2006 na Sala São Paulo

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foto: João Musa

Sob encomenda do intendente da corte de Munique, Mozart compôs a ópera Idomeneo, estreada em 29 de janeiro de 1781 no Residenz Theater, hoje Cuvilliés, daquela cidade. O libretista, Gianbattista Varesco, abade da capela da corte em Salzburg, baseou-se no Idomenée, escrito pelo professor de retórica e teatrólogo Antoine Danchet e musicado por André Campra. Idomeneo (Idomeneo, rè di Creta) é um dramma per musica em três atos, abertura e 32 números, dos quais dois são balés. Em cena, sete personagens (entre eles Idomeneo, rei de Creta; Idamante, seu filho; Ilia, princesa troiana; e Elletra, princesa de Argos, filha de Agamennon). Esta é a terceira e maior incursão de Mozart na ‘ópera séria’ (as anteriores, Mitridate e Lucio Silla, foram escritas, respectivamente, em 1770 e 1772).

O cenário é a ilha de Creta, onde Idomeneo vibra ao voltar gloriosamente da guerra de Tróia (fascinante mistura de fatos e mitos) e testemunha a paixão entre Idamante e Ilia. A trajetória da Idomeneo foi um sucesso. Nela, Mozart retrata emoções riquíssimas, intensas e heróicas, “talvez sem paralelo em suas outras obras”, como observa o musicólogo William Christie. Essa sensibilidade traduz-se em vibrante orquestração e extraordinário conjunto de recitativos instrumentais. Lembra Harnoncourt que o quarteto da morte da Idomeneo, escrito por Mozart dez anos antes do Réquiem, já denuncia um traço marcante da personalidade do compositor: a inquietação diante da fatalidade, a morte. Ao longo de sua vida, ressalta Harnoncourt, Mozart teve densa ligação emocional com essa ópera, especialmente com o quarteto. (Ele se identificava com Idamante, segundo confessou em diversas cartas ao pai, Leopold.) Delicado, de harmonia concisa e elegante -mas tão iluminado quanto à concepção grandiosa da Idomeneo- é o grande acervo de árias e recitativos compostos por Mozart.

Marino Maradei Jr. é jornalista, radialialista e docente da Faculdade de Comunicação da FAAP.

Réquiem
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foto: João Musa

José Maurício Nunes Garcia

- Introitus
- Kyrie

Cláudio Cruz regente
Osesp
Gravada em outubro de 2004 na Sala São Paulo

José Maurício Nunes Garcia escreveu várias obras fúnebres, entre as quais o Réquiem apresentado neste programa, composto em 1816. Esta obra está ligada às cerimônias em homenagem a D. Maria I, rainha de Portugal, que falecera em 20 de março de 1816, no Rio de Janeiro. Este Réquiem, entretanto, não foi executado nas exéquias oficiais, realizadas na Capela Real, como tradicionalmente se acreditava, e sim na Ordem Terceira do Carmo.

A musicografia mauriciana tem ressaltado o fato de a mãe de José Maurício, a mulata Vitória Maria, ter morrido no mesmo dia que D. Maria I, apontando o fato de o Réquiem, dedicado à rainha, ter sido escrito, ao mesmo tempo, em memória de sua mãe. Segundo o Visconde de Taunay, “o Réquiem foi composto entre lágrimas”.

Esta foi a primeira obra de um compositor brasileiro do período colonial editada em nosso País, em 1897, a cargo do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920). Essa edição apresenta modificações importantes em relação aos autógrafos. Mas foi de vital importância na divulgação do compositor carioca, tanto no Brasil quanto no exterior. Várias edições, integrais ou parciais, foram feitas a partir dela, inclusive fora do Brasil, e a peça chegou a ser executada em Roma, Bruxelas e Montevidéu, ainda na passagem do século XIX para XX.

Apenas em 1993 a edição de Cleofe Person de Mattos, publicada na Alemanha, restabelece o contato com os autógrafos mauricianos. Apenas duas gravações integrais da obra, a primeira com a Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, em 1958, e a segunda, mais recente, com o Coro do Morgan State College, registram esse monumento da música brasileira, merecedor de um novo empreendimento fonográfico.

O Réquiem 1816, apresentado neste concerto na edição de Cleofe Person de Mattos, está estruturado em onze seções: Introitus (soli SATB e Coro), Kyrie (Coro), Graduale (soli SATB e Coro), Dies Irae (soli SATB e Coro), Ingemisco (solo Soprano), Inter oves (soli SATB e Coro), Offertorium (solo Baixo e Coro), Sanctus (Coro), Benedictus (soli SAT e Coro), Agnus Dei (Coro) e Communio (Coro).

Muito se tem escrito sobre as semelhanças entre este Réquiem e o de Mozart. É evidente que seções como o Introito, Kyrie, Dies Irae têm motivos claramente derivados da famosa obra do compositor austríaco. Sabe-se que José Maurício dirigiu uma execução do Réquiem de Mozart em 19 de dezembro de 1819, no Rio de Janeiro. É possível que a partitura lhe tenha sido apresentada por Sigismund Neukomm (1778-1858), compositor austríaco, discípulo de Haydn, que chegou ao Rio de Janeiro em abril de 1816, um pouco antes da provável cerimônia onde o Réquiem de José Maurício foi executado. Mas, se há semelhanças motívicas em algumas seções, a maioria delas, da lavra exclusiva do compositor mulato, contém páginas marcantes. O Ingemisco é uma das mais louvadas composições do Padre Mestre, desde suas primeiras audições modernas, a partir do final do século XIX, aliando simplicidade com expressividade.O Agnus Dei apresenta um motivo expressivo recorrente nos violinos, extraído do Ofício 1816, obra gêmea deste Réquiem. O Lux eterna, sóbrio e tranqüilo, termina com um grande uníssono de vozes e cordas, como um último grito de agonia ou de libertação.

Carlos Alberto Figueiredo é regente do Coro de Câmera Pro-Arte do Rio de Janeiro e
professor de regência coral e análise musical na Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro, com pesquisa voltada para a obra de José Maurício Nunes Garcia.

Russlan e Ludmila
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Mikhail Glinka

Abertura

John Neschling regente
Osesp
Gravada em outubro de 2008 na Sala São Paulo

foto: João Musa

Glinka foi criado por uma avó, recluso num lugarejo da zona rural russa, e até a idade de 11 anos nunca ouviu música ocidental, somente sinos de igreja e as canções de camponeses e cocheiros. Mais tarde, como estudante na Alemanha, deu-se conta de que sua missão era a de ‘russificar’ a música russa, que até então se atinha a modelos italianos e germânicos. Sua imaginação naturalmente se desabrochava em ritmos ágeis e admitia o modalismo e a dissonância de origem folclórica, o que o colocou na historia como “pai” da música nacionalista russa, especialmente por conta de suas duas óperas: Uma Vida pelo Czar e Russlan e Ludmila.

O libreto desta última deveria ter sido escrito por Pushkin, mas ele morreu num duelo antes de concretizá-lo. O argumento bizarro – o resgate de uma princesa raptada por um anão maligno – passou então por várias mãos, e o resultado e um dos libretos mais estrambóticos da história, que só é salvo pela música empolgante. Glinka cria o sotaque russo em ópera: contos de fadas, ritmos galopantes, brilho orquestral e o uso de escalas exóticas para representar as forças do mal. A abertura – que não se furta a influencia de Mendelssohn– faz um apanhado dos temas mais memoráveis e é uma showpiece favorita de todas as orquestras.

Fábio Zanon é músico.